quinta-feira, 3 de maio de 2012

Um 1º de Maio à imagem da crise


Para além das notícias na televisão, imprensa e rádio e do grande falatório e contestação na marcha do 1º de Maio na Av. da Liberdade, eu vi com os meus próprios olhos a "corrida às promoções", como têm intitulado a polémica do Pingo Doce. Estava de carro a passar numa rotunda e não estava a perceber o porquê de todo aquele trânsito num feriado nacional e ainda por cima às quinze horas. Mas fui andando e lembrei-me do que a minha mãe me tinha falado dos 50 por cento de desconto nos Supermercados do Grupo Jerónimo Martins - neste caso o Pingo Doce. Então todo o trânsito se devia, não só à quantidade inexplicável de carros dentro do parque de estacionamento do Pingo Doce (de Loures), estando a polícia a proibir a entrada de mais clientes com viaturas, como também uma correnteza enorme de carros estacionados nos pequenos passeios existentes à volta deste supermercado. 
Muitos dizem que é bestial, porque a crise pela qual estamos a passar leva a uns a passar fome e outros não ter tanta fartura. No entanto, a grande questão que maior parte do povo não coloca é: "Mas porquê num 1º de Maio, considerado Dia do Trabalhador?". Segundo o que me foi dito todo o trabalhador tem direito a gozar esse dia. No entanto, decidiram acabar com o feriado, não sendo o governo a fazê-lo, mas sim os donos destes estabelecimentos, aliciando os seus empregados dos grupos Sonae e Jerónimo Martins a ir trabalhar neste dia, pagando o dobro ou mais do que pagariam num outro feriado. E, claro, que ninguém negaria uma oferta destas.
Outra coisa aliciante que fizeram, não “obrigando” só os empregados a ir trabalhar, foram as promoções surreais para os clientes, que, por sua vez, apareceram em grande massa e causando grandes confusões.
Na minha opinião é perfeitamente normal que os portugueses tenham aderido a esta grande promoção. Mas uma coisa é certa, desta maneira aos poucos e poucos nos vão tirando mais direitos e fazendo de nós um povo fútil. Porque para a rua saíram uns quantos para fazer a grande marcha do 1º de Maio, lutando mais uma vez pelos direitos do povo, fazendo do 1º de Maio o Dia do Trabalhador, enquanto outros foram levados a sair de casa para o consumir a metade do preço, fazendo do 1º de Maio o dia do Consumidor (que nem de casa saíam noutro ano qualquer nem para passear o cão).

Fora esta revolta e polémica, que até no programa da RTP1 5 para a meia-noite deu que falar, é bom ouvir o secretário-geral da CGTP-IN, Arménio Carlos, e o secretário-geral do PCP, Jerónimo Sousa, dizerem que esta foi das maiores marchas dos últimos anos, afirmando que esta foi mais uma demonstração de desagrado de um país em constante luta.

sexta-feira, 23 de março de 2012

desconhecida

Nas minhas voltas à procura de botas pela "feira" (se assim se pode chamar àquele conjunto de barracões) da Praça de Espanha em pleno dia de Greve Geral (ontem, dia 22/3),parecia tudo normal. A normal rebolia e mistura de etnias, músicas, cheiros, dialectos... entre as 12h e as 13h, plena hora de almoço.

Passei por todas as barraquinhas para tentar encontrar a tal onde comprei as botas das ultimas vezes que lá fui. Tendo em conta que mais depressa as pessoas conseguem um olhar que expressam o meu estado de espírito do que qualquer palavra da minha boca, vi no olhar daquelas pessoas, de diferentes etnias (africanos, indianos, chilenos, brasileiros...), o medo e a curiosidade, tentando perceber o que fazia ali uma rapariga branca com ar de perdida e com uns papéis na mão.
Uma vez a minha mãe disse-me "devem ter medo que seja alguma fiscalização". É capaz de ser isso.
Olhavam-me todos com um ar de desconfiados. Até o senhor, africano, que me deu indicações para eu estacionar o carro. Isto, porque fiz com que ele se sentisse à vontade comigo, perguntando-lhe se podia estacionar ali. Reparei como estava distante a falar comigo, não me deu qualquer tipo de confiança. Mas fui simpática, como sempre.
Dirigi-me à  tal senhora que me costuma vender as botas e recebeu-me com um sorriso enorme. Naquele momento senti-me completamente à vontade e confortável. Já me conhecia e sabia que procurava algo específico.
Quando finalmente fiz o que tinha a fazer ali percorri novamente todos aqueles corredores entre barraquinhas, onde se ouvia os sons africanos com o volume no máximo e dirigi-me para o meu carro.
Vi o senhor, novamente. Estava no mesmo sítio, com o pé dentro do seu carro vermelho com a porta entreaberta, e, atenciosamente, disse-lhe novamente "Obrigada". O senhor acenou-me e esboçou um pequeno sorriso.

terça-feira, 20 de março de 2012

Compensações

Ontem passei por uma "Operação Stop" da GNR e vi uma agente a mandar-me encostar e parar o carro.
Considero-me uma pessoa que merece sempre uma segunda oportunidade, por várias razões que seria exaustivo estar a enumerar. Mas esta agente, qual segunda oportunidade: estavam eles, cobardemente escondidos numa esquina, eles e a sua frota de carros e motas. Ia eu, a conduzir o meu pomposo carrinho e a cometer uma "contra-ordenação grave", que já tinha cometido vezes e vezes sem conta: criou-se o mau hábito.
Virei a esquina e ela (a agente), nem tempo me deu de deixar deslizar o telemóvel pelo meu braço, de fingir estar a coçar a orelha, sei lá eu, qualquer coisa que não seja estar a falar ao telemóvel.

Fez uso do seu imponente polegar e bafejou ar para dentro do seu imperdoável apito e mandou-me encostar. Faz uma continência e pergunta pelos "documentos de identificação pessoal e da viatura". Depois de tudo conferir, vem a pergunta da praxe: "Sabe porque é que foi mandado encostar não sabe?". Tive aquela ridícula tendência de dizer que não fazia a mínima ideia ou até perguntar: "tenho algum pneu furado?". E se eu tivesse um ataque de insanidade mental e de perda de memória? Seria a minha palavra contra a dela. Se eu jurasse até à morte que não estava a falar ao telemóvel, até onde seria testada a crebibilidade da palavra dela? Não sei, nem nunca vou saber.

Sei é que ainda fiz uso dos argumentos do costume: "não pode fechar os olhos a esta multa? Sou estudante, ando sempre aflito de dinheiro!". Reparem agora na subtileza da agente: "Se não conseguir pagar neste momento a multa, a sua carta de condução e viatura ficam apreendidas e poderá levantá-las na esquadra da PSP de Cascais quando arranjar forma de pagar a multa".

Respirei fundo. Fiz um ar insano, creio eu. Saquei do multibanco e larguei 120 euros.

Se aprendi? Aprendi. Tinha um auricular em casa, o que faz a multa ainda mais ridícula.

Mas lembro-me de um episódio ocorrido há dois meses atrás: assaltaram o meu carro e levaram-me coisas com um valor afectivo incalculável. (Pedro, guardavas coisas com um valor incalculável no carro? Sim guardava, o carro é meu e se o comprei não foi para pensar em cada minuto do meu dia que podia ser assaltado. Posso fazer com ele o que eu quiser).

O assalto ocorreu à porta da minha casa, o sítio onde vou deixar o carro durante muitos mais dias. Mas nessa noite, não estava nenhum agente da PSP com um dedo indicador imponente e um apito imperdoável para evitar o assalto. Não estava. E eu fui assaltado. E não me parece que isto seja um cenário justo.

Se é verdade que não podemos ter um agente da PSP em cada esquina das nossas ruas, também é verdade que eu não tenho rigorosamente nada a ver com isso. Devia haver um qualquer mecanismo de compensação, algo que funcionasse mais ou menos assim: a agente da PSP apanha-me com o telemóvel a conduzir e verifica que há pouco tempo a polícia não evitou um assalto ao meu carro que me deu um prejuízo que rondou os 650 euros. Isso deveria ser o meu plafôn para multas!

Mas claro, isto é só uma divagação de um cidadão que paga os seus impostos e é assaltado de várias formas..-