Nas minhas voltas à procura de botas pela "feira" (se assim se pode chamar àquele conjunto de barracões) da Praça de Espanha em pleno dia de Greve Geral (ontem, dia 22/3),parecia tudo normal. A normal rebolia e mistura de etnias, músicas, cheiros, dialectos... entre as 12h e as 13h, plena hora de almoço.
Passei por todas as barraquinhas para tentar encontrar a tal onde comprei as botas das ultimas vezes que lá fui. Tendo em conta que mais depressa as pessoas conseguem um olhar que expressam o meu estado de espírito do que qualquer palavra da minha boca, vi no olhar daquelas pessoas, de diferentes etnias (africanos, indianos, chilenos, brasileiros...), o medo e a curiosidade, tentando perceber o que fazia ali uma rapariga branca com ar de perdida e com uns papéis na mão.
Uma vez a minha mãe disse-me "devem ter medo que seja alguma fiscalização". É capaz de ser isso.
Olhavam-me todos com um ar de desconfiados. Até o senhor, africano, que me deu indicações para eu estacionar o carro. Isto, porque fiz com que ele se sentisse à vontade comigo, perguntando-lhe se podia estacionar ali. Reparei como estava distante a falar comigo, não me deu qualquer tipo de confiança. Mas fui simpática, como sempre.
Dirigi-me à tal senhora que me costuma vender as botas e recebeu-me com um sorriso enorme. Naquele momento senti-me completamente à vontade e confortável. Já me conhecia e sabia que procurava algo específico.
Quando finalmente fiz o que tinha a fazer ali percorri novamente todos aqueles corredores entre barraquinhas, onde se ouvia os sons africanos com o volume no máximo e dirigi-me para o meu carro.
Vi o senhor, novamente. Estava no mesmo sítio, com o pé dentro do seu carro vermelho com a porta entreaberta, e, atenciosamente, disse-lhe novamente "Obrigada". O senhor acenou-me e esboçou um pequeno sorriso.
sexta-feira, 23 de março de 2012
terça-feira, 20 de março de 2012
Compensações
Ontem passei por uma "Operação Stop" da GNR e vi uma agente a mandar-me encostar e parar o carro.
Considero-me uma pessoa que merece sempre uma segunda oportunidade, por várias razões que seria exaustivo estar a enumerar. Mas esta agente, qual segunda oportunidade: estavam eles, cobardemente escondidos numa esquina, eles e a sua frota de carros e motas. Ia eu, a conduzir o meu pomposo carrinho e a cometer uma "contra-ordenação grave", que já tinha cometido vezes e vezes sem conta: criou-se o mau hábito.
Virei a esquina e ela (a agente), nem tempo me deu de deixar deslizar o telemóvel pelo meu braço, de fingir estar a coçar a orelha, sei lá eu, qualquer coisa que não seja estar a falar ao telemóvel.
Fez uso do seu imponente polegar e bafejou ar para dentro do seu imperdoável apito e mandou-me encostar. Faz uma continência e pergunta pelos "documentos de identificação pessoal e da viatura". Depois de tudo conferir, vem a pergunta da praxe: "Sabe porque é que foi mandado encostar não sabe?". Tive aquela ridícula tendência de dizer que não fazia a mínima ideia ou até perguntar: "tenho algum pneu furado?". E se eu tivesse um ataque de insanidade mental e de perda de memória? Seria a minha palavra contra a dela. Se eu jurasse até à morte que não estava a falar ao telemóvel, até onde seria testada a crebibilidade da palavra dela? Não sei, nem nunca vou saber.
Sei é que ainda fiz uso dos argumentos do costume: "não pode fechar os olhos a esta multa? Sou estudante, ando sempre aflito de dinheiro!". Reparem agora na subtileza da agente: "Se não conseguir pagar neste momento a multa, a sua carta de condução e viatura ficam apreendidas e poderá levantá-las na esquadra da PSP de Cascais quando arranjar forma de pagar a multa".
Respirei fundo. Fiz um ar insano, creio eu. Saquei do multibanco e larguei 120 euros.
Se aprendi? Aprendi. Tinha um auricular em casa, o que faz a multa ainda mais ridícula.
Mas lembro-me de um episódio ocorrido há dois meses atrás: assaltaram o meu carro e levaram-me coisas com um valor afectivo incalculável. (Pedro, guardavas coisas com um valor incalculável no carro? Sim guardava, o carro é meu e se o comprei não foi para pensar em cada minuto do meu dia que podia ser assaltado. Posso fazer com ele o que eu quiser).
O assalto ocorreu à porta da minha casa, o sítio onde vou deixar o carro durante muitos mais dias. Mas nessa noite, não estava nenhum agente da PSP com um dedo indicador imponente e um apito imperdoável para evitar o assalto. Não estava. E eu fui assaltado. E não me parece que isto seja um cenário justo.
Se é verdade que não podemos ter um agente da PSP em cada esquina das nossas ruas, também é verdade que eu não tenho rigorosamente nada a ver com isso. Devia haver um qualquer mecanismo de compensação, algo que funcionasse mais ou menos assim: a agente da PSP apanha-me com o telemóvel a conduzir e verifica que há pouco tempo a polícia não evitou um assalto ao meu carro que me deu um prejuízo que rondou os 650 euros. Isso deveria ser o meu plafôn para multas!
Mas claro, isto é só uma divagação de um cidadão que paga os seus impostos e é assaltado de várias formas..-
Considero-me uma pessoa que merece sempre uma segunda oportunidade, por várias razões que seria exaustivo estar a enumerar. Mas esta agente, qual segunda oportunidade: estavam eles, cobardemente escondidos numa esquina, eles e a sua frota de carros e motas. Ia eu, a conduzir o meu pomposo carrinho e a cometer uma "contra-ordenação grave", que já tinha cometido vezes e vezes sem conta: criou-se o mau hábito.
Virei a esquina e ela (a agente), nem tempo me deu de deixar deslizar o telemóvel pelo meu braço, de fingir estar a coçar a orelha, sei lá eu, qualquer coisa que não seja estar a falar ao telemóvel.
Fez uso do seu imponente polegar e bafejou ar para dentro do seu imperdoável apito e mandou-me encostar. Faz uma continência e pergunta pelos "documentos de identificação pessoal e da viatura". Depois de tudo conferir, vem a pergunta da praxe: "Sabe porque é que foi mandado encostar não sabe?". Tive aquela ridícula tendência de dizer que não fazia a mínima ideia ou até perguntar: "tenho algum pneu furado?". E se eu tivesse um ataque de insanidade mental e de perda de memória? Seria a minha palavra contra a dela. Se eu jurasse até à morte que não estava a falar ao telemóvel, até onde seria testada a crebibilidade da palavra dela? Não sei, nem nunca vou saber.
Sei é que ainda fiz uso dos argumentos do costume: "não pode fechar os olhos a esta multa? Sou estudante, ando sempre aflito de dinheiro!". Reparem agora na subtileza da agente: "Se não conseguir pagar neste momento a multa, a sua carta de condução e viatura ficam apreendidas e poderá levantá-las na esquadra da PSP de Cascais quando arranjar forma de pagar a multa".
Respirei fundo. Fiz um ar insano, creio eu. Saquei do multibanco e larguei 120 euros.
Se aprendi? Aprendi. Tinha um auricular em casa, o que faz a multa ainda mais ridícula.
Mas lembro-me de um episódio ocorrido há dois meses atrás: assaltaram o meu carro e levaram-me coisas com um valor afectivo incalculável. (Pedro, guardavas coisas com um valor incalculável no carro? Sim guardava, o carro é meu e se o comprei não foi para pensar em cada minuto do meu dia que podia ser assaltado. Posso fazer com ele o que eu quiser).
O assalto ocorreu à porta da minha casa, o sítio onde vou deixar o carro durante muitos mais dias. Mas nessa noite, não estava nenhum agente da PSP com um dedo indicador imponente e um apito imperdoável para evitar o assalto. Não estava. E eu fui assaltado. E não me parece que isto seja um cenário justo.
Se é verdade que não podemos ter um agente da PSP em cada esquina das nossas ruas, também é verdade que eu não tenho rigorosamente nada a ver com isso. Devia haver um qualquer mecanismo de compensação, algo que funcionasse mais ou menos assim: a agente da PSP apanha-me com o telemóvel a conduzir e verifica que há pouco tempo a polícia não evitou um assalto ao meu carro que me deu um prejuízo que rondou os 650 euros. Isso deveria ser o meu plafôn para multas!
Mas claro, isto é só uma divagação de um cidadão que paga os seus impostos e é assaltado de várias formas..-
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