Nas minhas voltas à procura de botas pela "feira" (se assim se pode chamar àquele conjunto de barracões) da Praça de Espanha em pleno dia de Greve Geral (ontem, dia 22/3),parecia tudo normal. A normal rebolia e mistura de etnias, músicas, cheiros, dialectos... entre as 12h e as 13h, plena hora de almoço.
Passei por todas as barraquinhas para tentar encontrar a tal onde comprei as botas das ultimas vezes que lá fui. Tendo em conta que mais depressa as pessoas conseguem um olhar que expressam o meu estado de espírito do que qualquer palavra da minha boca, vi no olhar daquelas pessoas, de diferentes etnias (africanos, indianos, chilenos, brasileiros...), o medo e a curiosidade, tentando perceber o que fazia ali uma rapariga branca com ar de perdida e com uns papéis na mão.
Uma vez a minha mãe disse-me "devem ter medo que seja alguma fiscalização". É capaz de ser isso.
Olhavam-me todos com um ar de desconfiados. Até o senhor, africano, que me deu indicações para eu estacionar o carro. Isto, porque fiz com que ele se sentisse à vontade comigo, perguntando-lhe se podia estacionar ali. Reparei como estava distante a falar comigo, não me deu qualquer tipo de confiança. Mas fui simpática, como sempre.
Dirigi-me à tal senhora que me costuma vender as botas e recebeu-me com um sorriso enorme. Naquele momento senti-me completamente à vontade e confortável. Já me conhecia e sabia que procurava algo específico.
Quando finalmente fiz o que tinha a fazer ali percorri novamente todos aqueles corredores entre barraquinhas, onde se ouvia os sons africanos com o volume no máximo e dirigi-me para o meu carro.
Vi o senhor, novamente. Estava no mesmo sítio, com o pé dentro do seu carro vermelho com a porta entreaberta, e, atenciosamente, disse-lhe novamente "Obrigada". O senhor acenou-me e esboçou um pequeno sorriso.
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